domingo, 29 de abril de 2012

Uma estória de ideias

Mil artistas trouxeram ao mundo mil ideias. Um garoto quis saber e entender essas mil ideias. Cada idéia trazia uma reflexão a uma ação ou até mesmo a um pensamento. Quando chegou na ducentésima quadragésima nona, suas ações que mudavam entraram em conflito. Quando já tinha derrubado na sua cabeça todas as instituições que aceitava sem questionar, e agora criticava a existência de todas elas, encontrou o caos. Quando não havia mais pose, quando derrubou todas as convenções e lugares comuns, o garoto, que agora já era um rapaz, já não mais seguia a natureza do mundo, e agora questionava tudo. Sua confusão levava à indecisão prolongada, que por sua vez levava à inércia. Muito tempo depois de parar de questionar e começar a aceitar, o homem descobriu que a beleza está na trivialidade. Que novas paranóias só servem para fazer da vida algo confuso, sem sentido e sem rumo.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O desejo do rei

O rei Ohm-Casgar sentiu falta de sua princesa prometida, futura rainha do reino de Ohmna, a donzela Qnar-Ditria. Em seguida a viu descendo de seu cavalo e se encontrando com a princesa Chagh-Iine, sua antiga prometida e amiga da atual. Nesse sonho, o medo de perder as duas princesas para sempre o fez sonhar que as duas armavam um plano para matá-lo e desposarem-se, juntando os reinos de Ohmna, Qnarive e Chaghune. Matariam-no numa ceia em seu próprio castelo, oferecida por ele mesmo, para celebrar o noivado de Casgar com Dítria.

O rei acordou perturbado e escreveu uma carta para sua amada, ordenando que viesse imediatamente a seu castelo, acompanhada somente por sua dama de companhia. Selou a carta e entregou-a ao capitão do pelotão mais rápido, mandou-o trazer a princesa imediatamente.

Um dia de ida e um dia de volta o rei esperou impaciente. Matou dois escravos da obra de expansão do castelo para acalmar um pouco sua ansiedade. A noite que precederia o regresso da donzela, fornicou com mais de dez cortesãs e aí dormiu em paz. Pela manhã o capitão entrou em seu quarto com outra carta em suas mãos. A princesa se recusava tal ordem arrogante de seu rei prometido, mesmo sabendo que isso poderia ferir a relação entre os reinos. Disse também que estava espantada com o teor dos sonhos, porque a princesa Iine se encontrava em seu castelo, junto com o rei Chagh-Iívne, que propunha um casamento entre os três reinos. Iria visitá-lo caso pudesse levar a princesa de Chaghune, que recusava seu pai desposar com a princesa que ela amava e planejava fugir de seu reino.

Por um dia o rei pensou. Talvez se abrigasse a princesa em seu castelo, causaria uma guerra com o rei Iívne, mas teria o apoio de seu grande amigo, Qnar-Dmitri, que há tempos queria unir seu reino com o de Ohm-Casgar e também tinha sede por ver o rei Chagh-Iívne morto. Tomariam então o poder os dois e salvariam a princesa Iíne, tão amada por Dítria. Então mandou seu mensageiro mais rápido entregar duas cartas ao castelo Qnar, uma à princesa, dizendo que poderiam vir as duas princesas e que amava a ambas. Outra carta ao rei, pedindo apoio nessa guerra, que mantesse o outro rei em seu castelo, enquanto seu exécito, o mais poderoso de toda a península, tomava a força o reino de Chaghune.

O mensageiro voltou ao fim do dia, com a resposta positiva do rei Dmítri, dizendo que mandaria as princesas com sua guarda real e confinaria o rei em seu palácio como troféu de sua batalha próxima. Sendo assim, Casgar mandou preparar seu exército para partirem nas primeiras horas do dia seguinte na missão de tomar Chaghune.

Dois meses o rei e seu exército batalharam arduamente nas terras do noroeste da península, que davam acesso ao continente controlado pela democrática terra de Grëivus, que por falta de interesse na península de Patúo, ainda não tinham investido contra o reino de Chaghune. Nesses dois meses o rei escrevia às suas princesas, endereçando as cartas ao seu castelo, e elas respondiam em belas palavras que o esperavam mortas de desejo, que nunca quiseram tanto um homem quanto o queriam. Escrevia também ao rei Dmítri, que dizia manter o controle do castelo e do rei cativo, e chegou até a mandar alguns reforços para a guerra.

Por esses dois meses Casgar não se deitou com mulher alguma, sua regra de campanha. Só se deita com alguém quando a guerra está terminada. E o fim estava longe. Estavam a dias de distância do castelo Chagh e as batalhas eram cada vez mais difíceis. Desejava suas donzelas, mas desejar é diferente de ter. Teria que vencer essa guerra para voltar aos braços de suas amadas.

Mas o rei ficava cada dia mais fraco e descontente, porque cada vez via mais longe o fim da batalha. As esperanças diminuíam. Mesmo sabendo que as duas o esperavam pacientemente, a distância no espaço e no tempo o fazia perder as forças. Já não mais participava de todas as batalhas, e isso deixava seus homens menos motivados. Começava a perder batalhas. Foi aí que teve uma ideia, que talvez vencesse a guerra.


Preparou um mensageiro e uma escolta para ele e o mandou negociar com a capital de Grëivus, Ooy. O senado aprovou a ideia de mandar seu exército para a entrada da peninsula, atacando Chaghune pela retranca, onde menos esperariam, tudo isso em troca de dois povoados para dentro da península, que adeririam à democracia, contribuindo com os impostos ao país.

O exército grëivusiano invadiu Chaghune e, em conjunto com os exércitos ohmnianos, triunfararam sobre as terras invadidas. Casgar tomou o castelo e mandou seus homens desfrutarem da conquista nele, porque este rei havia de matar o rei cativo em Qnar.

Cansado de tantas mortes em suas mãos, Ohm-Casgar entregou nas mãos de Qnar-Dmítri a vida de Iívne . Foram os dois às masmorras de Qnar e encontraram o rei, que jazia no chão sujo, sorumbático. Mandaram banharem-no, cortarem as barbas e cabelos. Deram-lhe uma noite com duas cortesãs e uma refeição farta. No dia seguinte sentaram-se os três e Casgar pediu a Iívne e Dmítri a mão de suas filhas. Iívne pediu-lhe que cuidasse de sua filha assim como cuidasse de suas terras como último desejo, já que morreria antes da noite. Dmítri consentiu a mão da filha, e mandaram Iívne embora da sala para discutirem a divisão das terras. O rei de Ohmna deu carta branca ao sogro para que revindicasse a terra que quisesse, pois já tinha sua filha, que valia mais que todas as terras de Patúo. E as terras foram repartidas igualmente, pois para Qnar-Dmítri, os homens leais a Casgar que haviam sido perdidos nessa batalha mereciam espaço em sua memória no reino de Ohmna.

Ohm-Casgar voltava a seu castelo tremendo de ansiedade. Tanta batalha, tanto sangue por seus amores o tinham deixado cansado de mortes. O rei agora não seria mais cruel. Decidira ser mais brando com seu povo. Agora que estava mais rico, poderia dar uma vida melhor à plebe ohmniana. Quem sabe até desse a eles as terras e ficasse somente com o castelo? Poderia ser mais justo. Mas parou de pensar, porque naquele momento o que queria era ver suas mulheres, pois para quem espera tanto, com tanto desejo, a tortura da ansiedade parece não terminar nunca.

As encontrou prontas para ele, pois havia enviado seu mensageiro mandá-las esperar por ele. Que as duas já se amavam nesse tempo em que o rei esteve longe, ele já sabia, elas diziam nas cartas. Ao chegar beijou as duas com paixão, mandou preparar um banho para ele e esvaziar o andar de seus aposentos, pois queria um andar inteiro para os três. Assim passaram sete dias e sete noites, sem ver outras pessoas que não eles mesmos, sem saber se existia dia ou noite, comendo somente o necessário, amando sem interferência do mundo.

Assim o coração do rei, que antes era cruel e sedento por sangue, se tornou mais justo, pois quem espera com amor, quem vive em favor dos outros, sabe o que é felicidade, que só é possível se compartilhada

domingo, 30 de outubro de 2011

Por um país melhor

Vamos falar com ironia sobre o nosso país? Vamos dizer que devemos jogar bombas no Planalto Central e punir com morte os criminosos hediondos. Vamos mandar nossos filhos se educarem na Europa, porque você sabe, aqui nem as escolas são boas e nem os que frequentam as escolas são bencriados o suficiente para dar boas influências aos nossos filhos. Vamos parar de pagar nossos impostos, porque eles só vão para os bolsos dos políticos. Vamos gostar da arte de fora, porque cinema brasileiro só é putaria e matança, música nacional é sertanojo e safadeza e o que nos resta são os clichês das novelas. Vamos dizer que a Copa do Mundo não pode ser aqui porque nosso país não pode ser mostrado para fora assim como é. Vamos contar mentiras nos jornais porque ultimamente só tem desgraça. Vamos fazer algo em relação ao ano só começar depois do carnaval, porque assim a gente perde na economia para o mundo todo que está trabalhando a todo vapor. E acima de tudo, vamos beber para esquecer de tudo de ruim que temos em nosso país.

Agora falando sério. Vamos nos educar e levar as coisas que reclamamos mais a sério, começando pela política, em que protestar hoje em dia é votar em um palhaço ao invés de votar consciente. Vamos dar oportunidade a quem quer. Vamos participar das tarefas escolares dos nossos filhos e ver se a má influência da escola não são eles. Vamos parar de achar que a violência e a festança preguiçosa e inconsequente é algo bonito, porque elas são o cerne do nosso malcaráter nacional. Vamos saber porque pagamos os impostos e para onde vai o nosso dinheiro. Vamos descobrir nossa arte, vamos colocar o que é bom, ou até mais ou menos, nosso em evidência para todo o país gostar. Vamos arrumar o nosso país para a Copa e aproveitar bem toda essa atenção. Vamos saber qual é a verdade, porque toda mentira é bonita para nos agradar. Vamos olhar para nós mesmos e vermos que somos a imagem do nosso país preguiçoso e festeiro. E acima de tudo, vamos esquecer de tudo isso, porque é mais fácil e prazeroso deixar tudo como está e reclamar do que está ruim para fingirmos a nós mesmos que temos consciência crítica.

Tentativa de poema nº 06

Vem que eu lhe ponho no colo,
cheiro seus cabelos,
olho dentro de seus olhos
e atendo aos seus apelos.

Venha tu, que te mordo as bochechas,
sacio todos teus desejos
e arrumo tua cabeça.
Depois te ponho para dormir com beijos.

Eu vou, mas quero que me ame,
que compartilhe suas incertezas
e não me maltrate.

Também vou; quero que gostes de minha beleza,
e que me deixe te conhecer
assim como deixo entrar você.

sábado, 1 de outubro de 2011

Tentativa de poema nº05

Delicado


E da cama fiz nossa moradia,
coloquei cerca, parede e telhado.
Não importa se é noite ou dia
quero você sempre ao meu lado.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Tudo é para sempre

Sabe aquele gosto que a manhã tem quando você não dormiu? Aquilo de você se arrepender por não ter dormido mas se sentir bem por ter feito o que quis, com responsabilidades e metas mandadas ao caralho.

Pois é. Tudo é eterno.

Cada manhã não dormida, cada porre que você teve, cada ato inconsequente pode gerar consequencias, más ou boas consequencias. Assim como cada esforço será recompensado, com boas ou más consequecias. A sorte influencia bastante nisso. Como você consegue balancear prazer e deveres? Quanto de ser-feliz deve ser adicionado a faça-o-que-deve para que seu futuro não corra riscos? Cadê a porra da matemática numa hora dessas para ajudar?

De qualquer maneira, tudo é eterno.

A cadeia de reações que cada ato seu gera é infindável. E as não-ações também geram consequencias, até mais graves que algumas ações podem causar. Darei um exemplo que me acontece frequentemente. Uma ideia para um texto aparece na minha cabeça. Plim! Primeiro eu penso na pessoa mais crítica olhar isso num dia de mau humor. Essa pessoa, eu acho, sou eu. Analiso e quase sempre essa ideia fica enterrada na minha cabeça.

Pronto, o não agir vai durar para sempre. Se eu tivesse escrito o texto, teria compartilhado com qualquer um que se interessasse em ler, mas como não o fiz, vou conviver com a ideia ruim por um bom tempo. E aí, como balancear? Quando guardar e quando divulgar?

Como tudo é para sempre, arrepender também é. O melhor que tem é seguir seus instintos e refrear os arrependimentos. As decisões te levam a algum lugar, o arrependimento não.

Ninguém pode lhe salvar, mas qualquer um pode fazer você se perder.

sábado, 20 de agosto de 2011

Dilatar

Eu sou deus, criador. Tenho em minhas mãos algo que parece com uma liga de elástico. Esse objeto eu chamo de Tempo. Nele eu estico o tempo para quando quiser que dure mais um momento. Eu dilato o objeto assim como dilato o tempo. Gostaria que vocês pudessem vê-lo. Gostaria que vocês pudessem dilatar suas almas para vê-las e compreendê-las melhor. Vocês fugiram há tempos do meu propósito inicial. Não os criei para me adorar, isso seria egoísta da minha parte. Os criei para compartilhar algo que eu tinha descoberto e que achei ser muito ruim ninguém mais conhecer.

Eu descobri a felicidade e quis que outros desfrutassem. Me sentia um pouco sozinho, é claro, os demônios são seres difíceis de lidar, mas mesmo assim eu podia ser feliz. Sempre me ausentei porque quis vê-los descobrir a felicidade e saber como chegariam a ela. Mas não foi isso que aconteceu. Profetas confusos os fizeram a crer que deveriam me adorar e nada além de devoção total a mim. No começo me senti orgulhoso por isso, mas com o tempo me entristeci. Me entristeci por ter abraçado o egoísmo e, assim como vocês, fugido do princípio.

Quando meu filho desceu à Terra, queria que ele dissesse a todos vocês o que eu nunca pude dizer, por que eu e os demônios fizemos um ajuste de não interferir diretamente. Talvez isso pareça um jogo, mas aqui no paraíso e no inferno¹ as relações são difíceis. Tive de propor aos meus inimigos uma parte da Terra para eles, porque também me ajudaram a criar e porque o pacto é a melhor maneira de dominar um inimigo.

Os demônios são seres que não conhecem a felicidade. Passam os dias a atormentar os próximos, a roubar para saciar a ganância, a atentar contra a felicidade minha e dos meus convivas, a mandar entidades à Terra, a espalhar a tristeza.

Gostaria que vocês conhecessem a si mesmos, pois não sabem o potencial que escondem dentro de cada um, gostaria que pudessem inventar o Tempo Material como eu inventei, gostaria que fossem felizes de qualquer maneira que não faça outro infeliz, gostaria que ficassem felizes com a felicidade do próximo, pois eu fico cada vez mais feliz quando cada um de vocês descobre a Felicidade.


1 O que separa o inferno do paraíso é uma porta de metal e qualquer um que venha para esse plano não está preso em nenhuma das duas estações.